É um equívoco achar que alguns dos nossos instintos, como o amor de mãe ou o patriotismo, sejam bons por natureza, e que outros, tais como o sexo e o instinto de luta, sejam ruins.
Tudo o que queremos dizer é que as ocasiões em que os instintos de luta ou do desejo sexual devem ser reprimidos são mais freqüentes do que aquelas em que devemos reprimir o amor de mãe ou o patriotismo. Mas há situações em que é dever do marido estimular os seus impulsos sexuais, da mesma forma que encorajar o instinto de luta é dever do soldado. Há ocasiões ainda em que o amor de uma mãe por seus filhos, ou o amor de um homem por sua pátria, têm de ser subjugados; do contrário eles levarão a injustiças em relação aos filhos ou outros países. Estritamente falando, não existe esse negócio de bons e maus instintos.
Voltemos ao exemplo do piano. Ele não tem dois tipos de teclas: as “certas” e as “erradas”. Cada nota será certa ou errada dependendo do momento. [...]
Aliás, esse ponto tem fortes conseqüências práticas. A coisa mais perigosa que se pode fazer é tomar qualquer instinto e colocá-lo como algo que você tenha de perseguir a todo o custo. Todos eles, sem exceção, tornam-se verdadeiros demônios quando os assumimos como guias absolutos. Você pode até considerar o amor pela humanidade em geral seguro; acontece que não é. Se você deixar de fora a justiça, acabará quebrando acordos e falsificando evidências quando for “pelo bem da humanidade”. E, no final, acabará se tornando um homem cruel e traiçoeiro.
Retirado de Um Ano com C. S. Lewis, Editora Ultimato.





