A verdade sobre nós

IBFTO 14 de março de 2014 0
A verdade sobre nós

Qualquer pessoa, que não seja santa ou arrogante demais, tem de saber “viver mantendo as aparências”: ela sabe muito bem que há coisas dentro de si que se encontram bem aquém do seu comportamento público mais desprezível, até mesmo da sua conversa mais livre.

Em algum momento, enquanto o seu amigo hesita em pronunciar uma palavra, o que você acha que passa pela cabeça dele? Nunca dizemos a verdade toda. Podemos até confessar fatos lamentáveis – um ato de covardia mesquinha ou uma impureza injusta e prosaica – mas em tom de falsidade. O próprio ato de confessar – em uma olhada infinitesimamente hipócrita, com um toque de humor – contribui para você dissociar os fatos do seu próprio “eu”.

Ninguém suspeitaria quão familiares e, em certo sentido, apropriadas essas coisas são para a nossa alma, e como formam um todo com o resto: bem no fundo, no calor do seu íntimo sonhador, não seria tão destoante, não soaria tão estranho e longe do resto, quanto parecem quando são traduzidas em palavras. Nós costumamos inferir, e muitas vezes acreditamos mesmo, que os vícios habituais sejam atos individuais e excepcionais, e cometemos o erro oposto em relação às nossas virtudes – da mesma forma que o mau jogador de tênis se refere à sua forma normal como a dos seus “maus dias” e confunde os seus sucessos raros com os normais.

Não acho que seja erro supor que não possamos dizer a verdade sobre nós mesmos; o murmúrio persistente e íntimo, em todo o decorrer da nossa vida, causado pelo despeito, pela inveja, pela lascívia, pela cobiça e pela autocomplacência, simplesmente não é traduzido em palavras. Mas o que importa é que devemos tomar os nossos discursos como inevitavelmente limitados e como uma explicação para o pior que temos dentro de nós.

Retirado de Um Ano com C. S. Lewis, Editora Ultimato.

Deixe seu Comentário »